1 de março de 2008

A Passagem

Carregava consigo suas próprias trevas, a observar lá do alto, quieto, constante, plácido. Resoluto. Observava o movimento dos astros, as nuvens esparsas; fitava a nebulosa dança dos céus, misteriosa, irrequieta, abundante em sua riqueza de significados, vasta imensidão que enternecia seus olhos irrequietos. Pássaros traçavam retas ascendentes ao marear das sombras crepusculares, quando o anil se atava ao rubro em bruxuleios desinibidos, voluntariosos e perdidos na repetição de seu ritmo milenar e gracioso. Não haveria melhor lugar para se estar nesta Terra.

De lá, relutava em imaginar qual dos abismos lhe parecia mais profundo, se o que se deparava à sua frente, o vertiginoso penhasco de concreto, ou aquele que havia dentro de si, inescapável buraco negro de suas angústias e paixões. Preferia absorver aquele instante de contemplação, do mundo que o trouxera à vida.

À vida.

O turbilhão de devaneios indistintos confundia-se com o turbilhão de ventos a fustigar-lhe a pele, e não mais sabia onde ele próprio terminava, ou onde começava o mundo lá fora. Não havia mais fronteiras, com exceção daquela que conseguia distinguir tão bem no limite de sua visão: o horizonte, separando o céu da terra.

Espanto foi, ao olhar os arredores e ver que aquela linha fora traçada toda ao redor de si. Sentia-se o centro do universo. Seu universo, único e excepcional.

Era possível enxergar, ainda que meio vagos, os contornos dos carros que passavam e passavam, contínuos, lá embaixo. Um território que para ele agora era distante demais. Distante até para ver, e os olhos não conseguiam se manter precisos por muito tempo às linhas múltiplas formadas pelas ruas e vielas.

E nos pontos minúsculos, pessoas. Ele era uma delas, mas ao mesmo tempo não era. Era um universo particular, assim como todos os bilhões de outros, condensados em fragmentos de si, todos emaranhados em universos cada vez maiores, mais complexos, até uma proporção que já não poderia ser mais compreendida pela limitação dos ínfimos universos inferiores, fadados ao profundo desconhecer. Agarrado à grade que lhe tocava as costas, com o coração palpitante e suor varrendo-lhe a pele, percebeu que aquele passo seria o maior, pois o elevaria ao próximo universo a ser desvendado, àquele cujo conteúdo e existência poderiam ser apenas especulados.

Naquela hora, não pensava mais em reprovação, em dúvida, em remorso, em julgamento. Acreditava na libertação para uma verdade pura que se elucidava diante de sua própria consciência.

Um único instante de compreensão permanecia entre ele e o seu fim, entre o fim e o início, entre o início e o infinito indecifrável. Onde a aurora se fundia ao crepúsculo, e não mais poderia se distinguir a origem do término. Sorriu, indisfarçadamente, um sorriso diserto, genuíno, apenas para si. Era nesse exato momento em que se sentia um legítimo exemplar de si mesmo. Desapegado do álter, desprendido do ego, e lá estava ele, do jeito que realmente era. Ria-se, pois se desconcertava com a extrema pequeneza de si próprio, com as camadas e camadas de coisas que em verdade não eram ele, descobertas e desmascaradas pelos ventos da subliminar sensação de epifania inesperada.

E no segundo mais crucial, naquele em que os limiares da vida e da morte se cortejam e se afagam, uma última visão do meio sol que despontava no fim do dia o revelou em seus propósitos, e assim deu um passo a mais, como se desejasse vagar na translucidez quase etérea do ar que o circundava. Uma parte de si sentiu a gravidade inexorável, sugando-o, implacável, em sua queda, enquanto a outra, extasiada de súbito, também caiu, mas para cima, e para o alto, e para longe.

Para além.

Uma queda maior que qualquer outra, e mais divina. O vôo mais inesperado e extraordinário de todos, o último, e o que leva para mais longe, para depois da própria compreensão. O mais ansiado, o mais odiado, o mais querido, o mais inevitável, a decolagem perfeita, que esmigalha as ilusões, que brande novos sonhos como mártires de uma batalha pelo direito de prosseguir do próprio ser. Uma janela palpitante que se abre repentinamente para um limbo de trevas e luzes em constante explosão, furor, acionando todos os gatilhos do tempo e do espaço em uma única dobra aparentemente sideral.

Ascendeu...
Como a última folha que cai do plátano, a queda redentora, revelando todos os disfarces de sua existência transitória, desprendendo-se, derradeira, de seu galho, no final do outono. Cai, porém, orgulhosa, pois crê que reviverá na próxima primavera através daqueles que germinarão sobre suas cinzas, e que logo sentirá novamente o acalentar do vento sobre sua superfície...O mesmo que a carrega para distâncias que então ignora. Cai, pois crê que logo irá subir, irá voar mais uma vez, para longe, muito longe. O pleno desconhecido: o verdadeiro refúgio das almas libertárias.

6 de novembro de 2007

Lampyridae

As horas passavam indistintamente, como um fluido vagar de bolhas sobre o oceano...talvez fosse apenas uma sensação sem sentido, ou uma fissura no tempo. A rua da metrópole, os leves passos, as luzes fantasmagóricas ressoando, reluzindo, desfocando-se sobre o tumulto leve do fim da noite. Possivelmente eram quase 12 horas.

O apartamento era o 1808. Subiu sem urgência as escadas, escuras de muitas solas caminhantes. Estreitas, claustrofóbicas. Centenas delas. Em seu andar, tirou a chave, ouviu o tilintar do molho, o eco nas trevas do corredor. A porta abriu-se, mas não ligou a luz. A penumbra trazia algo de familiar aos seus olhos, invocava uma vontade subconsciente de se engolfar na escuridão sem muitas perguntas. A televisão permanecera ligada, fora do ar, cuspindo na sala apenas faíscas metálicas de luzes confusas. Deixou-se jogar no sofá verde musgo que já descascava, sentindo o odor abafado, obscuro, com um leve fragmento de mistério que não havia percebido antes. A janela estivera aberta todo este tempo, e uma brisa gélida se arrastava levemente.

"Estranho" - Pensou. Decerto não lembrava de tê-la deixado aberta. De qualquer forma, confortava-lhe saber que daquele andar a probabilidade de invadirem o apartamento pela janela era vaga e distante. Seria o trinco, quebrado?

Minutos se alongaram, e permaneceu estirado no sofá, mal respirava. Cansava-lhe os músculos, e seus pés tinham calos horríveis. A brisa ainda entrava, faíscas reberveravam nas paredes, fugazes. Levantou-se, foi até a janela. Não era a melhor das paisagens, talvez? De frente a outro prédio, mas de certo ângulo era possível enxergar uma parte da cidade. Acendeu um cigarro, e aproximou-se da janela. Desistiu. "Esse vento vai apagar", resolveu.

Foi à cozinha, dividida da sala apenas por uma meia parede. A geladeira era ruidosa, abriu com estrépito. O mofo cobria as paredes internas, e restos de alimentos se amontoavam uns sobre os outros, advindos de dias passados, mas não muito longínquos. Colocou água em um copo de vidro, e logo voltou ao sofá. Sem sapatos, passou os dedos em seus cabelos, sentindo a oleosidade, colocando-os atrás de suas orelhas. Pôs o cigarro na água, esperou alguns segundos. Bebeu-a. Capturou o cigarro com os dentes, e mastigou-o. Certa vez perguntaram-lhe que tipo de hobby era esse. "Anti-stress", dissera. "Pulmão 100%. Cáries morrem".

Não era comum sentar-se assim após um dia tão cansativo, geralmente dormia rapidamente. Mas gostava de observar as formas nas faíscas da televisão fora do ar, arriscar identificar uma ou duas imagens, existentes ou não, aparentes ou não. Com o hábito, conseguiu prever o padrão dos riscos e imaginar programas tão extraordinários quanto sem sentido. Pura perda de tempo, como ele próprio julgava. Contudo, no fundo acreditava em vultos subliminares..."Diz-se de um estímulo que não é suficientemente intenso para que o indivíduo tome consciência dele, mas que, repetido, atua no sentido de alcançar um efeito desejado", lembrou-se do ginásio. Enxergava sua própria vida (e há grandes chances que a dos outros também) como o grande exemplo de subliminar. Viver, cada dia, sem consciência, ou mínima dela, em doses homeopáticas...até o momento do grand finale, "sublime", como se satisfaz em pensar: o fim de tudo, e a hora da grande perspectiva, o último olhar do alto para enxergar tudo de forma complexa e panorâmica, para dizer "É, foi isso mesmo". Fantástico.

Amargou o gosto da nicotina. Cuspiu no copo. A janela ainda permanecia aberta, e a brisa entrava sem cessar. Estranho. Nunca tinha visto vaga-lumes nesta cidade gigantesca. Dois ou três pareciam indecisos, sem saber se entravam ou não, e um vento mais forte carregou-os para dentro. Talvez tenham se sentido confortáveis: as faíscas da TV pareciam mais simétricas.

Era a hora: fechar a janela, ou a hipotermia. Névoa transparecia em sua respiração, e sua sala já adquiria uma neblina desconfortável. Foi até a janela e observou o prédio em frente. Nenhum vestígio de luz. Apenas pontinhos cintilantes. Então deu-se conta, e viu que não eram apenas pontinhos, mas milhares de milhares de vaga-lumes perambulando da decadência noturna, enquanto brumas espessas cobriam as ruas lá embaixo. Apoiou-se na borda da janela, observando o espetáculo mais bizarro daquele dia. Passaram-se alguns segundos, e ele, estático, apreciava. "Essa terra também tem suas próprias constelações", pensava.

Após um tempo que não soube explicar, sentiu uma gota cair em seus ombros. Seria o orvalho? Estaria tão frio? Notou as unhas arroxeadas, e os cabelos meio duros com lascas de gelo encrustando-se entre os fios. Espantado, tocou a região entre a boca e as narinas, e sentiu uma crosta gélida se formando de sua respiração. Suas articulações estavam muito enrijecidas, teve dificuldade em despregar suas mãos da janela. Os vaga-lumes pareciam incontáveis, irresistíveis, desconfortáveis, luminosidade esquizofrênica, zumbindo, subindo, vagando em todas as direções, criando rastros tal qual néon desgovernado pelos ares da metrópole. Não poderia resistir mais que isso: precisava fechar a janela.

Olhou para trás, e já haviam centenas invadido sua sala. As sombras resvalavam na luz nas paredes, criando uma atmosfera de bioluminescência e insanidade avassaladora, e vultos relampeavam incansáveis, anômalos contra as faíscas enlouquecidas da TV, chiando, exasperando-se, jorrando nas paredes um frenesi eletrônico descomunal, tempestade de furiosas investidas das luzes, sombras, espasmos.

O extremo frio já congelava seus pulmões, e lagrimas cristalizavam-se em seus olhos. No derradeiro momento em que, com esforço colossal, arrastava a metade direita da janela para fechá-la, olhou de relance para o céu, e permaneceu estagnado.

A lua cheia desfazia-se em pedaços, quebrando-se ao meio, e fragmentando-se, diluindo-se no firmamento escuro, proliferando suas partículas luminosas em um pó excêntrico, vertiginoso, espalhado aos ventos obscuros, empestando o ar com arremedo de estrelas fosforecentes, doentias, inescapáveis. Partículas que tomavam uma forma peculiar, em vaga-lumes múltiplos, desastrosos, apocalípticos. Faziam brotar no ar a luz decadente do fim.

E de longe, via-se uma janela entreaberta no décimo oitavo ou décimo nono andar de um prédio sem nome. De lá se ouvia, em meio a chiados, uma música que saía de uma televisão, que alguém, por descuido, deixara ligada durante a noite.

"Firefly, firefly...on your glowing wings I'll ride..."

21 de abril de 2007

Conhaque, Vira-me!

E foi assim que aqui vim parar. Dispersado ferozmente pela multidão lasciva, estontearam-me de tanta gente que havia. Fui praticamente escorraçado dali, e bendito seja o Criador por ter permitido resguardar um tico de minha vida! Bando de inúteis! Todo esse movimento por conta de um reles empregote de desobstruidor público. Não, Joseph, não te confundas! Mas antes de explicar-te o porquê, faça o favor de encher este copinho mais uma vez, pois foi para isto que vim aqui.

Pois bem, como eu disse, não te confundas com o nome pomposo, e nem na garbosidade dos que o carregam. Desentalar bueiros e desafogar tráfegos de esgoto, isto que é! Falta-me verba até para a comida diária (mas não para mais este copinho, Joseph, garanto!). Posto, então, que fui lá me candidatar a esse trabalhinho lúgubre. Ô gente esfarrapada, que tipinhos imundos! Dei a me perguntar o que estava eu fazendo ali de repente, não fosse os roncos estomacais a me lembrarem dos motivos, até demais. Tinha até alguns ainda de cuecas, Joseph, tamanha era a voracidade pelo cargo, tão de surpresa que foram pegos pelo anúncio! Onde se esconderam os guardiões dos excelentes costumes? O auto-falante da prefeitura começou a convocar, e em um minuto e meio já estava o caos pandemônico.

Ah, se não fosse este copinho santo, de cujo conteúdo mais sacro ainda! Esquenta-me a alma e lava-me a paciência. Quando o oficial da prefeitura, um moço de rosto esburacado, nariz grande e olhos muito miúdos começou a citar o nome dos selecionados - e veja só Joseph, em minutos já haviam até escolhidos os novos trabalhadores! - aí é que o tumulto alcançou níveis infernais! Logo o frio que faz aqui na cidade esmoreceu e o calor tomou o seu lugar. Muitos demandavam justiça, pois haviam aqueles que madrugaram no local cedíssimo, como que adivinhando o anúncio de emprego, acomodando-se nas calçadas e meio-fios. E, apesar disso, anunciaram o dito cujo já com as listas prontas! Que pensam que somos nós? Bufões urbanos?

A confusão foi tamanha que os bondes elétricos não puderam mais trafegar sossegadamente, e os automóveis quase atropelavam os transeuntes. Nos prédios vi gente olhando pela janela, com feições de surpresa, e por que não, asco. Quase uma revolução em frangalhos, Joseph! Daí que derrubaram o pobre moço do palanque em que estava empoleirado fragilmente, e decerto que terminou pisoteado, pois segundos depois vi que alguns mendigos brigavam por um uniforme da prefeitura, e os cachorros desses maltrapilhos decidiam intestinos e pâncreas.

Com a multidão em frenesi, fecharam as portas do escritório da prefeitura rapidamente, contudo os revoltados não cessaram sua confusão. Sabes muito bem, Joseph, que uma barafunda muito bem feita não é incomum de se ver nos dias de hoje, mais prolífica que fumaça preta nas nossas caras. Desemprego carcome a tudo e a todos, tu bem sabes, não é? Mas sabes de uma coisa? Os indignados tão dóceis ficaram de repente que estranhei. Quando percebi, estava chovendo bananas e outras frutas em nossas cabeças. Tratei logo de me abrigar sob um dossel por ali, e sorte foi a minha, pois as criaturas já estavam jogando até melancias e abacaxis. Muitos foram os que ficaram cegos, pois que na curiosidade de olhar para o alto e identificar o que diabos estava acontecendo, surpreendia-se com uma coroada de abaxi na fronte. Vários estatelaram-se com melões na testa, mas de resto, todos se dispersaram, refestelados que estavam pela refeição do dia que chovia para eles. Homens, mulheres, crianças, cachorros, velhos, ratos, baratas, moscas vieram logo depois para aproveitar a ceia. As crianças eram ágeis o suficiente para escapar de balaçoes frutíferos, e as mulheres logo colhiam os restos do chão com os vestidos. Cessada a tempestade alimentar, a rua tomou-se completamente! Qual formigas no torrão de açúcar! Não faltava quem lambia o asfalto vorazmente, com a mais profunda das gulas. Do caroço à casca, tudo se acolhia. Alguns mais espertos, que já fastiosos e satisfeitos, danavam-se a comerciar as frutas mais ou menos intactas que conseguiram apanhar.

Estranho me pareceu, Joseph, que já havia alguns moradores saindo dos prédios, decerto para readquirir o que jogaram. Mas veja lá, os espertalhões vendiam as benditas até pelo quíntuplo do preço de feira! Uma comédia a cara dos prediais!

Felizmente ainda possuo noções de elegância, e dispenso certas posturas impróprias. Prefiro quedar de inanição a submeter-me a tal degredo. Por isso tratei logo de afastar-me dali. Se o emprego já não valia, comida já não havia, motivo não tinha para permanecer.

Pois é, caro Joseph...Quero ver se este copinho aqui pode enganar a fome brutal que sinto. Pois é hoje que não hei de virá-lo, mas o conhaque, este sim, virar-me-á!

19 de janeiro de 2007

Dialogue of the Dead

The funeral feast was finished. A grave-digger complains, fiercely gripping an old wine bottle by the neck. A simple cadger comes in and looks inside a grave recently made.

THE CADGER - Oy, what are you doin'?

GRAVE-DIGGER - Are you what, retarded? T'is my job! I'm working!

THE CADGER - Nice job you've got, pal. And an even better wine in yo hand. Gimme a sip, don't be no selfish. (Grabs the bottle and takes a sip)

GRAVE-DIGGER - The hell with you! Gimme back, you indigent! Don't you have nowhere to go? (stretches the arm to get the wine back, drinks half the bottle)

THE CADGER - Watch your manners, deadlover! Don't ye know I've seen you making out with that lady's corpse, you sick! Do you want me to spread the news around?

GRAVE-DIGGER - What! Are you insane, beggar!? Shut your damn mouth and don't you dare say anything!

THE CADGER - Alright, alright... just gimme this, this bottle.

(The grave-digger unwillingly gives the bottle, half empty, to the cadger. He starts crying)

THE CADGER - Ho, for God's sake, stop crying! Look... I was just kidding. (drinks the wine)

GRAVE-DIGGER - Don't you try to look so special, dammit! Nobody knows loneliness better than I do. Living with all those dead bodies, how can I say... makes you feel somethin' for them, ya'know. That's not somethin' that may be explained.

THE CADGER - Yep. I don't understand. (takes another gulp)

GRAVE-DIGGER - Just look at that tomb with a wingless angel over there. That's where Mr. Buckhead is buried. He was good guy. There are always lots of flowers growing over... maybe they feed upon his goodness. And the Stompmock family tombs near the fence, do you see? The damned tykes like to come over and shit it damp. The Mockies were never the kind of  people who gave a damn about others, wasn't it? That's what I think...

THE CADGER - I see... it doesn't elucidate a lot of questions... (the bottle is almost empty)

GRAVE-DIGGER - You know you're going to hell, don't ya? (stares at the cadger)

THE CADGER - Fuck hell... there is no hell. This life is enough hell, thank you very much. (looks inside the bottle in the hopes of finding a last drop of wine)

GRAVE-DIGGER - Hiahiahia, don't be a fool! I'm sick of hearing that! No, you DON'T know what hell means... but once you die, you'll see it with your own eyes, or whatever you'll have to see.

THE CADGER - (breaks the bottle at a tombstone) Fuck hell!

GRAVE-DIGGER - Anyway... When you live a long time in a place like this, ya'know... they're my family now. Death is not the end, ya'know that right?

THE CADGER - (searching for another drink) Yep. How could I deny? I just didn't know pieces of rotten lady parts would be so sexy.

GRAVE-DIGGER - You shut up! Missess Buckhead was as good as new! It'd be such a waste...

THE CADGER - You're lying.

GRAVE-DIGGER - No, I'm not.

THE CADGER - Yes, you are.

GRAVE-DIGGER - No.

THE CADGER - Tell me the truth, before God's Eyes and all the holy angels'.

GRAVE-DIGGER - I'm telling the truth.

THE CADGER - Now.

GRAVE-DIGGER - Fuck you.

THE CADGER - Bastard.

GRAVE-DIGGER - Where did'ya find that bottle?

THE CADGER - Over there.

GRAVE-DIGGER - Bastard.

THE CADGER - Love isn't it?

GRAVE-DIGGER - What the hell are you saying!?

THE CADGER - Love after death.

GRAVE-DIGGER - (in silence)

THE CADGER - Haha. (drinks the wine)

GRAVE-DIGGER - She seemed so, so gentle, so beautiful. I couldn't resist... Even though there's nothing inside someone's corpse. They say there's a soul, but  how come, if no one can prove it!? Bullshit. What I think, and that's what I really think, is that we humans have de ability to give some of our feelings to anything or anyone who may live with us. Then, when it or he or she passes away, we keep the good and hard times in our memories, and it echoes into space, just like sound. There are many feelings that may grow on to create life or whatever. All this flesh we are is disgusting, be it alive or not... just like a prison. Awful.

THE CADGER - That's not my problem, after all... You need to get some sleep, you've been drinking too much. (drinks the last drop of wine)

GRAVE-DIGGER - You're the one who drunk all of my wine, you jerk!

THE CADGER - Yeh, yeh... stop yelling and go back to your grave. Harder work is about to come, war is raging outside.

3 de julho de 2005

A Estrada dos Mundos


Nada mais que os fulgurantes anseios sublimes de um coração alado haveriam de surgir resplandecentes ao céu da aurora, alimentando os sonhos de uma paixão tão explosiva quando imaginável. À beira de um penhasco sorridente, os olhos alçam asas aos céus, fitam maravilhados a essência matutina de um jardim sem rosas, mas brilhante pelo orvalho chorado nas trevas da noite. Imagina-se, pois é a mais bela forma de pensar. Imagina-se.

As faces silenciosas da mente fantasiam e perturbam, flutuam em vapores, pétalas e vozes, estonteiam em tempestades luminosas, cavalgam gélidas em cavalos ventosos. Cantam a sinfonia majestosa dos reis altivos e a melodia melancólica da flauta e do jovem que caminha dentre os bosques verdejantes de outrora. As faces que se calam em nossas mentes, que nos falam em vozes taciturnas aos ouvidos nossos. As faces de nossa imaginação sem lembranças ou vestígios, que surgem sem entoar o cântico dos que chegam e saem em fugidios momentos, sem ao menos evocar as singelas notas da elegia dos que partem. E a escuridão engolfa e inebria, e se esvai ao menor toque da luz que alumia as fontes dos devaneios mais intrínsecos e imortais.

Por que insistem em quebrar o encantamento pueril das vozes do transcendental? Na escuridão de um presente desencaminhado no julgamento da humanidade, quem ousou macular o oceano incandescente dos meus sonhos? A aurora ainda raia, e eles lá flutuam em meio às irreverentes nuvens, montados em grifos, pégasos e dragões, e o desejo de também voar com eles aos seus reinos, pertencer à magia deslumbrante das lendas que lhes deram origem. E cruzar a terra de mim, a mais longínqua, de estrada mais ardilosa e traiçoeira em sua sapiência de ilusões, mas tão bela, belíssima, indescritível, irracional, incoerente em seus céus multicoloridos. As estrelas de meus céus em crepúsculo, cujos olhares curiosos enxergam mais profundamente que quaisquer outros olhos, iluminam todas as terras, conspiram e amam, vêem e compreendem. Do outro lado de mim hei de encontrar as verdades inconstantes, as respostas aparentes, os sonhos perdidos, as dores inatas, as mentes clandestinas que se alastram e espalham as tramas oníricas de um destino inefável. Do outro lado de mim hei de encontrar aqueles banidos do mundo dos homens, reduzidos a sombras que ainda deslizam por sobre a terra dos céticos.

O que é o fruto de meu mundo? Quem há de garantir que ele não possui existência, se ele habita no território infinito da minha mente? Deixem, deixem que as sementes carreguem em seu âmago a esperança dos que sonham, a fonte dos sedentos, os olhos dos perdidos! Os filhos da mente dos homens, os filhos de nossas estrelas, que a realidade confunde e não suporta, e queremos nós que eles realmente tornem-se reais! Nossos filhos, que vagam entre o real e o imaginário, despencam dos precipícios e sangram com o sangue das nossas vidas terrenas. Por que há de haver o momento em que neles não mais nossa crença apontará? O momento inconcebível que assassina as criações das nossas incontáveis imaginações, o momento que cobra o preço mais incalculável, o custo dos nossos sonhos em tempos da infância para a passagem sombria à idade dos velhos. Os velhos, que morrem assim que uma década ecoa no espaço, desde quando matam o primogênito dos seus pensamentos.

Resquícios mortais dos mundos imortais que um dia existiram, e que ainda existem ocultos nas sombras da convicção empírica. As sobras do império imagético, do reino dos mil prismas, das terras que apenas são, e nada mais.

Em névoas tenho de buscá-los, quebrar as muralhas de pedra que circundam o coração, muralhas construídas aos poucos até tornarem-se o grande esquife de nossos corpos. Em névoas eles se encontram, espalhados em nuvens fantasmagóricas, retratos surreais, esguios, cintilantes, perfeitos. Os tomos, poderosos arautos das imaginações, iluminam a estrada com suas palavras que fascinam. Quem jamais sentiu o incomparável feitiço do transporte que nos revelam seus trechos, as ondas delirantes de sua tinta, a fragrância que invade as narinas, sob cuja atuação desvendamos os mistérios da nossa pré-existência, abrindo gigantescas portas dentro de nós mesmos? Os filhos nossos que soergueram suas cabeças e escaparam da vigilância constante dos olhos vivos do mundo real, nossos filhos pródigos.

O encantamento quebrado, mas não totalmente desfeito. A aurora que morre, o penhasco que não mais sorri, o orvalho que evapora, as nuvens que se vão, o tempo que escorre por entre as artérias do céu. Meus olhos que enxergam dentro de mim os mundos de minha mente, à deriva, deliberando a existência de pensamentos proibidos do outro lado. Um passo a mais, e a grande muralha sucumbirá. Um portal se anuncia envolto em luzes místicas, e as essências se fundem: vejo-me acenando, e os filhos nascidos na terra da idéias clamando pela minha ida. O sol media o firmamento e observa o retorno daquele que não partiu. O abismo clareia. Um passo a mais: a queda e a ascensão.

Poderei eu estar vagando nas fantasias de minha imaginação ou nas pradarias nebulosas de meus sonhos, mas ainda que o labirinto das ilusões possa estancar o rio que flui em meu olhar ou as borboletas espelhadas da realidade se manifestem, mesmo assim, eu ainda hei de saber que existe outro mundo dentro de mim, a morada mais profunda de minha mente universal, onde não há tempo, não há dimensão, não há palavras; apenas sensações que me permitem ter a certeza de sua existência serena e eterna de tão imaginária.

27 de junho de 2005

O Dom da Fênix

As flechas de plumas negras cortam o ar como relâmpagos ensandecidos cortam as nuvens durante as densas tempestades de inverno. Neste mesmo ar rasgado, ecoam gritos de fúria, gritos de medo, e gritos de desafio. Inúmeras vozes borbulham em uníssono, e as línguas negras do inimigo unem-se às nossas, o prólogo da impetuosa canção da guerra. 

Existem milhares ao meu redor, mas estou sozinho. Vejo os céus se fecharem em minha solidão, despejarem sua ira em águas gélidas e trovejarem insultos mascarados. Os soldados inimigos se aproximam, armados de medo e destruição. Seus rostos disformes indicam sua malevolência cruel, sua presença aterrorizante retumba como em tambores a cada passo, a cada instante, alertando a natureza o massacre que está por vir, o sangue que será derramado, a terra que será maculada. O sol, não percebi, foi-se.

Os olhos, ai, os olhos daqueles homens. Seus olhos cospem ódio em nós, enquanto lágrimas escorrem dos meus. Não mais escuto o eco do terror. Eles estão mais perto, mais perto...Sinto a batida de seus corações corruptos...Minha espada, empunho-a ferozmente, está ao meu lado. Meu reflexo cinzento em sua lâmina dá ao meu corpo força, não sinto o peso insuportável de minha armadura, não mais sinto o calor, mas o silencioso frio das gotas suicidas da chuva. Meu coração explode em ansiedade, a angústia percorre o campo da batalha, furta minha calma. Sinto o fétido odor, o suor, o sangue, a cólera intensa; o inimigo alcança-nos, e rouba-nos. Perco a esperança.

Está escuro. Despiram-me, estou vestido de trevas. Arrancaram meus olhos, não enxergo. Cortaram minha língua, não falo. Amputaram minhas pernas, não ando. Meus sentidos me abandonaram covardemente, caí nesta escuridão eterna? Minhas ancestrais crenças de nada valem, tudo é inacreditável em meio ao nada. Meu desejo antigo em acreditar esvai-se em vapores inextinguíveis. Percebo a fé, está me deixando sem misericórdia. Perco a fé.

Um medo inimaginável corre em minhas veias agora, não posso respirar, o ar não existe mais...Estou sufocando, o medo me enforca...Temores vis assolam minha alma, se ainda tenho uma. Ai, não sinto meu coração bater. Roubaram-me tudo, não me encontro em mim. Não sei quem sou. Estou terrivelmente aprisionado em cela de augúrios, à corrente de espinhos férreos, minha mente, imersa em pensamentos niilistas e indolores, não pensa mais. Estou perdido em pesadelos inconstantes, sombras imperfeitas e sonhos impróprios. Estou me perdendo. Perco-me.



Não estou morto. Ouço uma luz inefável penetrar em meus olhos, cheiro o som da brisa chegar aos meus ouvidos, vejo o perfume de terra molhada. Minha pele retorna aos músculos, que retornam aos ossos, que retornam. Meu coração bate, minha mente se liberta escrupulosamente. Encontro-me novamente após muito tempo, eras indizíveis. 

Estou vivo. Olho em minha volta, incontáveis centenas de cadáveres jazem. O sol, em sua gloriosa jornada, eleva-se no amanhecer, num novo renascer. Lágrimas, desta vez diferentes, deslizam sobre minha face. Choro. Não me perdôo. A vida não me abandonou no momento em que perdi a esperança, a fé e a mim mesmo. A vida que se alimenta de esperança, que bebe na taça da fé, perdeu ambos em uma trágica simultaneidade. Perdeu seu reflexo quando me perdi, mas não se foi. Graças ao inexorável exército inimigo aprendo que a vida, a primeira e a última dádiva, a mais valiosa, a mais grandiosa, perece apenas no último segundo, quando então renasce em triunfo, sobre suas próprias cinzas.

24 de junho de 2005

Filhos de Roma

Não que em vossas faces, filhos de Roma, podeis distinguir os infortúnios de vossa prosperidade, pois não conseguis. Que habilidoso oráculo haveria de prever tão alucinante idéia? Teu orgulho talvez não prevalecesse ante os desígnios de Jove. E assim se perdeu. Acalantai-vos uns aos outros, ao menos aqueles felizardos que ainda não se perderam na negritude carbonífera ou que ainda não se consumiram nas chamas crepitantes de meu reinado. Meus olhos vêem vossas mãos agonizantes tateando a fumaça em busca de abrigo: decadência vossa! A mim, cabe apreciar espetáculo tão sublime. Quando, em tantas festividades, houve alguma com tantos atores e tais efeitos teatrais? É possível que a negligência se aposse de minha vontade, mas não nesta cerimônia. Creio que das mais belas vozes a minha não alcance os melhores tons, embora meus dedos ainda consigam dedilhar tão bem quanto as fiandeiras de Minerva!

Quem senão tu, nobre Roma
Cavou feliz a cova própria
Tu que foste grande glória
E toma o de Cibele cálice?

Quem senão tu, divina Roma
Armou alegre a tumba própria
E cantou com voz contraditória
A soma final de teus tantos dias?

Queima, Roma, em gigante pira
Tuas colunas de mármore e leis
E reduza-te em cinzas. Ó, quereis
A tira da dor estender até a morte.

Que ironia do destino podeis notar! Tal fumaça de vosso sangue em vapor aquece minha garganta e dificulta o meu cantar. Não quereis minha elegia? Lembrais que apenas ao som de uma lira Cérbero há de descansar, ou será que vós desejais sofrer a mordida mortífera do cão tricéfalo? Acreditais, filhos de Roma, que mesmo nos domínios de Plutão e Prosérpina vossas carnes hão de sentir dor além de qualquer sofrimento e sensação. Portanto, aceitais esta elegia concedida de tão bom grado.

Ó espíritos que nas chamas
Acendem qual negro carvão
Escutai este que toca a canção
E chama bons augúrios até vós.

Preferis as mandíbulas severas
Do vil animal canino tripartido
Que jamais foi antes concebido
Mas que feras todas o temem?

Vossas fogueiras ardem, filhos de Roma! Cinzas hão de ser vossa herança; negro é o vosso futuro e o presente queima com as altas labaredas infernais! Seja o palácio de Mecenas testemunha de vossa infelicidade inominável, pois daqui o vermelho rubro de douradas línguas do fogo que vos consome é mais cintilante, e vossos gritos de desespero constante afaga-me os ouvidos!

Queira o deus da cristandade
Salvá-los de seu tão invisível
Trono. Povo tão incorruptível,
Que maldade pode afligi-los ?

Ó Roma, que a vontade das Fúrias possa fechar vossas cortinas de fogo por toda eternidade!

26 de maio de 2005

A Arte das Flores Invernais

Há de existir tal deidade deslumbrante? Em que magnífico templo poderei eu encontrar face cujos olhos emanem o brilho negro da universal eternidade, a resplandecer como se ali fossem as benditas moradas dos mais luzidios astros luminosos do céu noturno? Belíssima, mil vezes bela; talvez não haja cálculo que lhe imprima tal virtude, e nunca em mil milênios haverá equação que solucione o mistério do encantamento que permeia o cerne de seu espírito.

Em seus cabelos repousa a majestade envolvente dos meandros de suas madeixas negras, e entre eles repousa a face mais bela entre as mais belas. Talvez recaia meteórica a inveja saudável sobre as suntuosas flores dos jardins das Hespérides, que jamais tocadas antes foram pelos maus augúrios do inverno: a época primaveril é vitalícia. Pois tão bela é a face, cem vezes mais que o irromper glorioso da entidade solar por entre as nuvens tempestuosas e cinzentas no fim da tarde. A delicadeza ingênua de seus músculos tão graciosos torna-a tão atlética, mas ainda tão feminina; tal Diana em suas verdejantes florestas de além. A brandura de seus gestos acalenta, digna de admiração profunda; onde mais poderia eu encontrar macieza mais sensível?

Ó, bela! A bendita grafite que contorna tua pele, teu sorriso, tua integridade: maravilha das maravilhas! Fossem tuas faces rosadas como são em meus sonhos, e não mais a brancura imaculada da folha de papel que te serve de único lar. Inspira-me, mesmo assim, e minha vida enche-se de alegria ao contemplar-te. Guardei-te com carinho infinito, e tirei de tua gaveta os outros rabiscos e esboços que já não me valem nada. Ainda não te emoldurei, pois não há moldura que possa equiparar-se a ti. Aprecio tocar a superfície suave e sentir os contornos que o lápis construiu. Que contornos! Prateados à luz da lua, encanta meus olhos e meu ser, traz-me uma faísca do calor de tua beleza.

Pois o que por ti sinto é mais que a fraternidade entre criador e criatura, e tão diferente. Seria o mais escaldante amor dos amantes, não fosse tu como és, obra de minhas mãos, espelho dos meus sonhos, alvorada de meu destino. Fosses tu real! Observa-me assim, tão terna, e já não posso olhar para outro lado. Estás sempre em meus pensamentos. Temo mais nada quando estás em minhas mãos. Apenas a morte que nos separará no fim, quando meu espírito se resguardará apenas em lembranças tuas no outro mundo, pois és imortal.

Inspira-me a viver!

Desejo sempre estar ao seu lado, e esqueço-me do alimento, da água, dos dias que passam e da chuva que cai. Atormenta-me saber que jamais poderei fazer mais que te olhar. Estar ao teu lado é o suficiente para que as estrelas brilhem com mais intensidade, o ar flua como signo de vida e minha mente passe a reservar as melhores lembranças ao teu semblante que ri. Mesmo que tu não respires e não percebas minha existência, estarei sempre contente ao extremo apenas pela tua. Como gostaria eu de tocar-te a face, enrolar teus cabelos e afagar teus dedos sempre belos! Beijar-te seria elevar-me ao paraíso mais celestial e receber a benção mais consagrada das mãos das divindades maiores. Queria eu ouvir meu nome de tua, imagino, sedosa voz chamando-me pelos corredores, e chamar-te de esposa.

Contudo, quis o destino que tu fosses apenas assim: uma marca de grafite em pedaço de papel. Não poderei tocar tua face e enrolar teus cabelos sem encontrar a resistência cruel da alva folha, nem afagar teus dedos, que embora belos, inalcançáveis. Beijar-te, impossível: a saliva poderia dissolver a ti e matar a mim. E tua voz, ó dor maior, jamais poderei escutar; mas posso chamar-te de esposa ainda.

Apenas o amor que floresce entre nós pode resistir ao tormento que limita o sentido de minha razão e a torna desvairada, pois mesmo que nada me reste, terei a ti, e tu a mim. A lucidez que brota da paixão aquece meu ser e conserva meu corpo consciente. Pois a minha sentença foi proferida desde o momento em que a ponta do lápis afastou-se e te admirei pela primeira vez.

Deixas, ó bela, a fome vir. Deixas, o sono passar. Deixas a sede surgir; deixas o frio consumir e o calor confortar. Minha sina há de se cumprir, e não te deixarei por nada que possa acometer meu pensamento, enquanto este ainda viver. Tua companhia é a única de que preciso, e teu amor é o único remédio, embora eu não possa tê-lo e tu não saibas disso.

E na derradeira noite, talvez a Morte possa buscar-me. E assim, ó bela, poderei contemplar-te pela última vez, e beijar-te como nunca antes beijei, e abraçar-te com a força que me restar. A grafite há de borrar, o papel há de desmanchar, mas a lembrança de ti jamais cessará. Jamais.


Quis eu a desventura tão bem-aventurada
Um bem maior de estar triste, mas amando
Viver entre sorriso brando e lágrima salgada
E sentindo a dor de amar, e amargando o pranto.

Amor assim, tanto acende quanto se apague,
E tanto mais ao ataque sempre resistência
Pois da moeda que tudo sempre se pague
Tanto há dela, que se sobra a persistência.

Quisesse Vênus em divina juventude ouvir
Do criador os soluços inflamados em lamento
Pela adorada musa, sem saber se chora ou ri.

Dentre negras veredas, tal ardente sentimento
Há de seguir contente, pois fora tão bem vivido
Querendo um bem amado, mas não menos sofrido.

24 de maio de 2005

Algumas Histórias

Então assim se iniciam as grandes viagens, tão despretensiosas que não enxergam além do limite do horizonte. Quando se deixam perceber, léguas e léguas já foram percorridas. Talvez esta seja uma dessas viagens. Ou não. Pois há aquelas que, de tão gigantes, tropeçam em seus próprios pés e desabam com todo o seu tamanho logo no início. Espero que esta assim não seja.

Os caminhos da escrita talvez sejam longos e árduos, assim como a estrada para quaisquer outras artes. Tudo vai depender do caminhante. Algumas histórias serão aqui escritas. Talvez elas tragam alegria, talvez ódio. Quem sabe dor, ou alívio. É possível que façam toda a diferença, mas também podem fazer nenhuma. Isso vai depender do leitor.

Dessa forma, escritor e leitor andam lado a lado em busca da perfeição. Claro, o caminho pode levar à rota dos escritores que, de tão queridos, perdem a humildade, e assim se perdem. Ou à rota dos grandes que não são compreendidos, perdem a vontade, e se perdem. Ou também à rota daqueles que escrevem para si próprios, e buscam a harmonia quando os únicos leitores de suas histórias são seus próprios olhos. Estes seguem um caminho tão solitário que se perdem dentro de si mesmos.

E ainda há outros, muitos outros caminhos. O destino deles é indefinível, mas algo é certo: todos nascem a partir de um único pátio.

Aqui se inicia a jornada. Espero ter dado o primeiro passo.